
EU ESTAVA CEGO, AGORA EU VEJO
Eu estava cego, agora eu vejo é uma exposição de fotografias analógicas que investiga o ruído como linguagem estética e poética. Granulações, borrões, falhas de exposição, vazamentos de luz e interferências químicas — elementos historicamente compreendidos como erros técnicos — são aqui assumidos como parte fundamental da construção da imagem. Ao evidenciar essas imperfeições, o trabalho desloca o olhar do espectador da busca pela nitidez e pelo controle para uma experiência mais sensível, onde o acaso, o tempo e a materialidade do processo fotográfico se tornam visíveis.
A série apresentada nasce de um processo experimental que explora os limites do aparelho fotográfico e da própria emulsão do filme. Filmes vencidos, múltiplas exposições, intervenções químicas e técnicas experimentais são utilizados como formas de tensionar a relação entre técnica e acidente, permitindo que o inesperado participe ativamente da criação das imagens. Nesse contexto, o ruído deixa de ser entendido como falha e passa a operar como índice do processo, revelando não apenas o que foi fotografado, mas também as condições e os gestos que tornaram aquela imagem possível.
Ao transitar entre a exposição física e o ambiente digital, o projeto propõe diferentes significados para a experiência fotográfica contemporânea, reconhecendo que a imagem analógica hoje circula também por meios virtuais. A exposição online amplia o acesso ao trabalho sem abandonar seu eixo conceitual, funcionando como uma tradução do processo material para o espaço digital. Dessa forma, o projeto convida o visitante a repensar a fotografia não como registro perfeito do real, mas como campo aberto à experimentação, à imperfeição e à construção de novos sentidos a partir do ruído.
Roldão Aguiar é fotógrafo, designer e jornalista em formação. Sua pesquisa investiga a fotografia analógica e os processos experimentais da imagem, explorando o ruído, o erro e a materialidade fotográfica como formas de linguagem e comunicação visual. Seu trabalho transita entre fotografia, design gráfico e experimentação artística, refletindo sobre os limites entre registro, narrativa e expressão na imagem contemporânea.